Two Poems Towards Summer

by Ana Martins Marques | trans. Elisa Wouk Almino

We want the sun

to stain our skin,

the sand to hurt us

Summer
The days aren’t hard
or compact,
they’re days of vacation,
bright and open days,
freed from the calendar,
days that recall those other days,
from some other childhood,
which perhaps never existed.
We want the sun
to stain our skin,
the sand to hurt us,
we spend all our money
on hot beers,
we let the water salt our bodies
and strip ourselves of so many other products
(the creams, the crimes).
Of these days we accept everything,
their excitement and excesses,
we light salty cigarettes
and let the light hurt our eyes,
we linger in conversations
brittle as these stars we find.
Apart from one another,
but at the disposal of the sun,
we accept each other
like one lizard
accepts another.
And at the end of the day
– the sun left its mark, our bodies traced,
there is nothing to tell
other than the sea and its repetition,
its waters taught us about an unstable silence,
made of foam,
we move in the rhythm
of the beach’s almond trees
– we are more porous
we’re thirstier,
we awaken in us
certain submarine thoughts
and a memory forged
in the light flesh of forgetting.
But this you can’t see in these photographs.
Verão
Os dias não são firmes
ou compactos,
são dias de férias,
dias claros e abertos,
libertados do calendário,
dias que lembram aqueles outros dias,
de uma outra infância,
que talvez nem tenha havido.
Queremos que o sol
nos manche a pele,
que a areia nos machuque,
gastamos todo o nosso dinheiro
em cervejas quentes,
deixamos a água nos salgar o corpo
e nos despir de tantos outros produtos
(os cremes, os crimes).
Desses dias aceitamos tudo,
seu alvoroço e seus adereços,
acendemos cigarros salgados
e deixamos a luz ferir nossos olhos,
alongamo-nos em conversas quebradiças
como essas estrelas que encontramos.
Excluídos uns dos outros,
mas disponíveis para o sol,
aceitamo-nos
como um lagarto
aceita outro.
E no fim da tarde
– o sol deixou seus indícios, nossos corpos traçados,
não há nada a contar
além do mar e sua repetição,
suas águas nos educaram em um silêncio instável,
de espuma,
movemo-nos no ritmo
das amendoeiras da praia
– estamos mais porosos,
temos mais sede,
despertamos em nós
certos pensamentos submarinos
e uma memória forjada
na carne clara de esquecer.
Mas isso você não pode ver nestas fotografias.
Ana M_Summer illustration

The Earring
It could be that like the stars
things are separated
by small intervals of time
it could be that our hands
from one day to the next
no longer fit
inside one another
it could be that on the way to the movies
I lose one of my favorite
ideas
and it could be
that on my way back
I will have happily
resigned
to this loss
it could be
that my dirty reflection
in the glass of the cafe
is a more exact image
of myself
than this photograph
more exact than the recollection
an old college classmate
has of me
more exact than the idea
I myself
now have of me
and so it could be
that the tired girl
of sad eyes
who works at the cafe
has a more faithful
image of me
than any other person
it could be that a gesture
a way of folding one’s lips
suddenly
in the same way a cup
can be worth a trip
and a chair
can equal a city
but a dog stretched in the sun is not the sun
and a Wednesday can’t be the same
as an entire life
it could be
my dear
that by forgetting on your bed
my left earring
I will force you later
to think of me
at least for a moment
as you pick up the small silver
circle
whose cold
weight
you now feel in your hands
as though it were
(but oh so inexact)
my love
O brinco
Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma de minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que um xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo
que uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor

 

***

Elisa Wouk Almino is a writer, editor, and literary translator from Portuguese. In 2017, Scrambler Books published her translations of poetry by Ana Martins Marques in the book This House, which she also illustrated. Formerly the book reviews editor of Words Without Borders, she is currently an editor of harlequin creature’s online translation platform and a senior editor at Hyperallergic. You can find her writing and translations in Asymptote JournalGuernica, the Paris Review Daily, n+1, Ugly Duckling Presse’s 6×6 Journal, Washington Square Review, and other places.

Ana Martins Marques was born in Belo Horizonte in 1977. She is the author of the poetry collections A vida submarina (Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015), Duas janelas (with Marcos Siscar; Luna Parque, 2016) and Como se fosse a casa (with Eduardo Jorge; Relicário, 2017). She has received various literary awards in Brazil, among them the Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional and third place for Prêmio Oceanos. Her poems have been translated into English, French, Italian, and Spanish. This House is her first book published outside of Brazil.

image: by Elisa Wouk Almino

 

This is the final in a three-part series of poems translated from the Portuguese. Purchase a limited print edition of this set of poems by clicking here. Your purchase of this edition helps to support contributor honoraria and printing costs.

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